Foto: Gabriela Pagliuca
Seis e quarenta da manhã, eu saía de casa como quase todos os dias, meio distraído, pensando nos acontecimentos da última semana. Foi enquanto eu brincava com a chave do portão em minhas mãos que eu a percebi. Linda, ruiva, um terço da sua perna aparecendo por causa de sua bermuda, uma camiseta da nossa banda preferida, em sua orelha direita, a que dava pra enxergar, duas argolinhas iguais, suas unhas estavam pretas e feitas, lindas como sempre.
Demorou um momento pra ela me perceber ali parado atrás do portão, ela estava chorando com sua agenda aberta no dia do aniversário dele. Quando me viu, colocou a foto dele dentro da agenda e a fechou, a colocou em cima de sua mochila vermelha, levantou e colocou uma carta com a letra dele dentro do bolso da bermuda. 

Veio até mim, com seu all star vermelho sem meia, seus cabelos lisos presos em marias-chiquinhas, ela era baixa, então, ficou nas pontas dos pés e me deu um abraço. Pude sentir aquele perfume só dela, suas mãos macias em volta do meu pescoço, tudo passou muito rápido, mas pra mim não, parecia uma eternidade, meu tempo parou e só voltei em mim quando senti uma lágrima dela molhando meu ombro, mas continuou aquele abraço tão aconchegante. 

Ela tinha completado dezoito anos fazia três dias, estava quase terminando o colegial, estudava na escola desde a quinta série, ela adorava ir pra escola, todos seus amigos estavam lá, mas agora ela nem se importava com sua formatura ou vestibular. 

Ela estava linda, mais linda do que todos os dias desde que eu a conheci, mesmo sendo um dia tão… Ela estava maravilhosa, eu não estranhei muito ela ter vindo aqui pra casa de manhã desabafar, por que juntos nós poderíamos tentar superar, mesmo ela sabendo que não ia superar tão cedo. 

Loren, esse era o nome dela, Loren. Meus dias nunca eram iguais quando eu estava com ela, cada dia acontecia uma coisa diferente, e quando não a via, meu coração sentia muita falta, e eu tinha muito medo de nunca mais vê-la. De ela de repente se afastar da gente, não nos procurar mais. 

Quando ela me soltou daquele abraço, pude perceber seus olhos brilhando muito e algumas lágrimas neles, mas um sorriso muito sincero. No que ela se afastou, percebi um chaveiro com três chaves em sua mão, aquelas chaves que tantas vezes ela esqueceu em cima da mesa da minha cozinha, sua mãe cobrava dela e ligava pra eu não me esquecer de levar no dia seguinte pra escola. 

Eu adorava quando ela ligava, ela tinha uma voz suave, ela fazia brincadeiras com sua voz de vez em quando, contava piada ao telefone, aquelas piadas que se contam quando passam trote. Ela era assim: engraçada, meiga, distraída, apaixonada, inteligente, carinhosa com seus amigos. Tinha vezes que eu gostaria de pegar da mochila dela e esconder a chave só pra ela ligar mais tarde, mas eu não tinha coragem pra fazer isso. 

A gente fico parado lá na frente de casa um certo momento, então tive a impressão de que ela lembrou de alguma coisa e pediu pra gente ir andar, eu estranhei, por que era andando que a gente ia pra escola. Mas ela não queria ir pra escola, eu percebi depois, quando ela virou à esquerda quando devia ter virado à direita. E me levou pra longe da escola. 

Ficamos num ponto de ônibus por alguns minutos até qualquer um passar, enquanto esperávamos, ela pegou de sua mochila uma camiseta que eu havia emprestado pra ela fazia muito tempo, num dia que ela derramou café na sua, ela nunca nem tinha falado sobre devolver a camiseta, já que era uma camiseta do Blink 182, e nesse dia eu já nem lembrava mais, e me devolveu. Tirei meu uniforme e coloquei a que ela me deu, eu me sentir melhor, por que ela era mais grossa e o dia estava frio. 

Esperamos sentados no chão mesmo, em silêncio, eu sabia que tínhamos muitas coisas pra ser ditas, mas não conseguíamos dizer nada, no máximo falar algumas coisas, mas se as palavras saiam com algum sentido nós sabíamos que não. 

Eu fiquei reparando nela, ela era pequena, encaixava sua cabeça no meu ombro, abraçando seus joelhos e se balançando, seu cabelo caía em seus ombros e brilhava com o sol que fazia. Ela me fazia me sentir tão pequeno, por ser tão maravilhosa, mesmo eu sendo uns quinze centímetros mais alto que ela. 

Ela me olhava como se tivesse alguma coisa pra me contar, alguma revelação, e até muitas vezes, abria a boca como se fosse dizer, mas não dizia. Nada. 

Subimos no ônibus que levava até o Largo da Batata, onde gostávamos de ir pra ficar na praça de manhã, na IGREJA e comprando CD´s e sempre gostava de ficar olhando boinas, chapéus, óculos escuros quando estava com os amigos, eu sempre os acompanhava, por que era divertido passar esses momentos com ela. 

Quando chegamos em frente da igreja, não conseguimos nos sentir culpados por estar longe da escola daquela hora, a gente sabia que Deus não ia nos punir por estar ali aquele dia, por que aquele dia… 

O dia estava lindo, o céu azul, mas um frio muito calmo, sem vento, o sol esquentava só um pouco, não havia muitas pessoas na rua àquela hora, só começou a chegar pessoas pra missa das sete e meia, e assim que eles chegaram, nós saímos de lá, me bateu uma tristeza, por isso. 

Meus dias eram todos lindos, ele podia não necessariamente estar perfeito, mas estar com ela, abria qualquer céu cinza, feio, triste, emburrado. Fomos andando e paramos numa padaria, comemos alguma coisa enquanto conversávamos sobre qualquer coisa, ficamos a manhã inteira jogando papo fora, sobre ela terminar o colegial, também sobre entrar na faculdade, sobre seus planos pra seguir sua vida, sobre Green Day, a banda preferida, e nossa viagem que íamos fazer em uns seis meses para os Estados Unidos, na casa de uma prima dela. 

Ficamos conversando e andando, ouvindo CD´s nas lojas que parávamos, procurando um mais barato, tentando fazer ela se distrair experimentando xales, óculos, boinas e afins. 

Nessas horas dava pra esquecer a tristeza, não via a hora de fazê-la rir de novo, aquela risada só dela, ela não se importava com o sol e ficar andando, ela gostava de andar. 

A gente ficou fazendo nada a manhã inteira, então minha mãe sentiu minha falta no almoço, e a dela também, me ligaram, as duas, imaginando que estivéssemos juntos, falamos onde estávamos minha mãe pediu pra gente não se atrasar a noite. 

Pagamos um ônibus e fomos pra Av. Paulista, no MASP, ela era a artista da escola, adorava tudo sobre pintores e escritores, não deixava nada passar, brincávamos que ela era praticamente a reencarnação de Anita Malfati sem talento, mas talento ela tinha vários, sabia desenhar muito bem, tocava um pouco de violão, e fazia os outros rirem. Ela era perfeita. 

Ficamos na Av. Paulista até umas cinco da tarde, e decidimos ir pra casa, como não morávamos muito longe, a levei até a dela, por que já estava escurecendo, quando chegamos em seu portão, ela ficou de novo nas pontas dos pés e me abraçou, agradeceu pelo dia e entrou, antes disso virou e disse com uma voz triste “não me abandona hoje de noite, eu vou falar alguma coisa sobre ele lá no altar… Samuel, como ele faz falta…” e eu disse pra não se preocupar que eu estaria sempre com ela. 

Chegando em casa encontrei todo mundo pronto pra sair e minha irmã mais nova sentadinha na frente de uma foto dele na mesa da sala, quando eu entrei ela deu um pulo e disse: “PEDRO!” mas olhou meio decepcionada pra mim, mesmo assim veio até mim e me deu um beijo. 

Subi as escadas pro meu quarto sem sentir nenhum sentimento, nem feliz, nem triste, então quando eu cheguei no nosso, quer dizer, no meu quarto, li de novo aquela carta que ele me deixou “Cuida da Lo, Sam, eu a amo demais, não deixa ela chorar, e quando fazê-la rir, repare em seu sorriso, não é bonito, é mágico. Te amo, irmão, a gente se encontra aqui em cima.” 

Ele só tinha dezenove anos e nos deixou tentando vingar o irmão de um amigo.  


Esse texto pertence à ficção. Todos os personagens e situações são de um mundo fantástico criado pela autora.