Essa história, na verdade, começa quando eu ainda comia feijão. Bem, pra ser sincera é uma época que eu quase não me lembro e poucas coisas são apenas em flashs. Como por exemplo, quando eu comia sopa de letrinhas e de feijão. Quando fecho os olhos, me concentro, consigo lembrar a fumacinha saindo e uma amostra do gosto chega a minha boca. Lembro dos meus irmãos e eu, de banho já tomado, com aqueles pijamas quentinhos de flanelas com estampa de bichinhos sentados nos banquinhos da cozinha, quase do nosso tamanho, um pouco menor. Nessa fase era prazeroso comer.

Foi em uma escola de período integral que a enjoação toda começou. Era uma escola carioca, tinha acabado de mudar para o Rio de Janeiro. Os almoços eram arroz, feijão preto, peixe ou alguma outra carne. Éramos obrigados a comer pelo menos uma mistura além do arroz e feijão. Aquilo foi entrando em mim e eu tinha cada vez mais nojo. Chegou uma hora que eu me revoltei.

(por favor, caso você esteja comendo e/ou tenha estômago sensível, não leia as próximas frases)

Era uma tortura ter que comer, ou melhor, enfiar goela a baixo, peixes com espinha, almôndegas recheadas de asinhas de mosca, feijão preto sem caldo e com gosto de plástico, arroz duro e amarelado e de sobremesa, gelatina com um caldo suspeito. Até na “semana da criança” éramos presenteados de hambúrgueres e batata frita com pitadas fios de cabelo. Era muito nojento. Conheço pessoas que ficaram menos revoltados, como meus próprios irmãos e um amigo que até hoje mantenho contato, que se lembram apenas como “é, a comida era bem ruim, mesmo”, mas para mim, a comida não era ruim, era nojenta e eu não achava que meu corpo era obrigado a ingerir aquilo.

Não que a escola tenha me feito ser do jeito que sou hoje, mas tenho certeza que por ser do jeito que sou, agi com rebeldia. Segui meus princípios, o primeiro de não ingerir nada que não tenha passado por uma inspeção da vigilância sanitária. Ficava sentada ali na mesa, conversando com meus amiguinhos que iam saindo um a um, me vendo sozinha, brincava com a comida – não a comia, brincava com ela – a essa altura não tinha mais ninguém no refeitório, até os alunos mais velhos que eram os últimos a chegar, já tinham ido embora. As copeiras viam conversar comigo, me obrigavam a comer, falavam que eu não ia sair dali se não comesse, conseqüência disso foi eu ter perdido muitos recreios destinados à digestão sentada na mesa do refeitório. Uma vez, me lembro de ter chegado quando o recreio da minha classe já tinha acabado e a professora já estava em sala de aula.

Aliás, fugindo do feijão, o que fiz depois que saí dessa escola, lá, no mesmo lugar, eu era brigada a fazer natação e ballet, enquanto os meninos, sempre levando vantagens, praticavam judô, bem mais legal que pliê-estiquê. Desenvolvi uma sinusite para, naquela época, não nadar e por ter atestados médicos não precisava nadar como todas as outras crianças-abacatinhas (o maiô e a touca eram verdes). A doença, que deu muito dor cabeça – em todos os sentidos – sumiu misteriosamente alguns anos depois para que eu pudesse viver bem . Sobre o ballet, não digo que traumatizei, mas não gosto muito da modalidade. Talvez seja por não gostar mesmo e não tenha nada a ver com as aulas, porque hoje eu gosto de dançar e tudo mais, mas ballet me lembra a escola, então nada de piruetas.

Voltando ao feijão, me afastei dele desde essa época. Não só dele, coitado, não vamos fazer distinção, muito menos ser preconceituosa com o carioca. Não como feijão preto e branco, almôndegas – porque me faz lembrar um gosto estranho que não era de carne -, peixe e outros frutos do mar e até lasanha, tenho uma leve lembrança de que comia antes e parei de comer repentinamente.

Fui me virando todos esses anos sem anemia e nenhuma outra doença por falta de ferro, seguindo meu cardápio. Sempre que brincavam comigo sobre estar fraca, precisando comer mais feijão, eu sorria e continuava a brincadeira “talvez começar a comer seria uma opção válida” mas eu nunca levava a sério.

A última vez que comi algo dessas modalidades foi na mesma época, morando no Rio, fui visitar uma amiga e de almoço tinha camarão (nhami, que delícia! Eca!!) comi com ajuda do suco de fruta que foi servido na hora e sem mastigar e tocar na parte da língua que faz sentir o gosto, fui educadíssima. Nunca mais fui a casa dela.

Até o dia que eu resolvi virar vegetariana. Levando em consideração que no dia-a-dia das pessoas, as refeições são feitas a base de arroz-feijão-salada-carne, tirando a carne eu teria opção arroz-feijão-salada. Tirando o feijão que não era opção válida, ficava arroz e salada. Não como arroz puro porque não tem graça, então sobra salada e se eu comer só salada por duas semanas, eu desisto. Por isso, decidi comer feijão. Para dar um gostinho a mais no arroz-salada-batata (ou alguma outra dica do dia).

A minha primeira experiência foi só com o caldo em cima de apenas uma colher de arroz. O cheiro e o gosto não eram diferentes do que achei que seria. A diferença estava no preparo, na hora de servir, no tempero, na higiene que só vi não ter naquela escola. Comi de olhos fechados, pensando em ser chocolate! Demorei quase um mês para fazer a decisão definitiva de ser vegetariana. Quando fui, no primeiro almoço sem carne, comer o feijão que estava me esperando e praticamente me chamando, o que foi que eu percebi? Era feijão preto. Aquele – IGUALZINHO – o que eu comia na escola. Claro que não era nojento, era um feijão maravilhoso, toda minha família – que come feijão preto – gosta. O problema é que me recusei a começar a dieta do feijão com feijão carioca, fala sério, era sacrifício demais! Almocei uma saladinha gostosa!

No dia seguinte tinha feijão “paulista” e eu almocei arroz-feijão-salada e deu tudo certo, nem precisei pensar que era chocolate. Não sou fã, ainda – posso vir a ser –, do feijãozinho, mas como um diálogo que eu tive com minha irmã que achou que eu estava errada de trocar algo que eu gosto – carne – por alguma coisa que ainda não gosto, mas toda mudança exige sacrifícios. Eu sei disso porque já mudei tudo, muito. Estou me adaptando muito bem com meu novo companheiro diário. Não estou sentindo que estou fazendo nenhum grande sacrifício, a comida daqui de casa é realmente muito gostosa e temperada – e higiênica!