Meu objetivo nesse texto é instigar uma reflexão para saber o ponto que estamos de nosso desenvolvimento pessoal e quais são nossas limitações para uma verdadeira mudança social. Meu objetivo não é obrigar ninguém aqui a levantar bandeiras e ser militante de causas sociais, é apenas mais uma reflexão sobre sociedade e espiritualidade, pela expansão da consciência. Acredito que a reflexão vale a pena, embora realmente não tenha uma resposta concreta para nenhum problema.


Quando mergulhamos em uma jornada de autoconhecimento e espiritualidade em busca do desenvolvimento pessoal, podemos nos afastar ou ignorar uma realidade social muito presente em nossos dia-a-dia: a opressão sofrida por grupos específicos.

É muito comum, por exemplo, quando eu falo sobre feminismo, as pessoas dessa comunidade mais “espiritualizada” acharem que eu estou falando a partir de uma mulher ferida, cheia de limitação do ego e que meus argumentos partirão de raiva e nojo de homem. Não. Tenho, sim, minhas limitações, mas estou falando de feminismo através de uma consciência de quem já passou por problemas relacionado a questões de gênero, que se curou e quer ajudar, com essa experiência, na cura de outras pessoas e da sociedade.

Algumas pessoas agem como se eu não conseguisse enxergar que “somos todos um” e que não precisamos brigar, podemos viver em paz. Lógico que sei disso, é a premissa que sigo ao ser simpatizante de movimentos. Quem oprime é que não sabe – ou esquece pelo seu próprio benefício – e acredito que nossa função é tentar expandir nossa consciência. Com amor, compaixão e resiliência – meditando e conversando.

Assim é com política e outros temas sociais: polêmicos demais para falarmos sobre.

Mas eu vejo muita importância em falar disso e acredito que podemos falar de qualquer assunto no paradigma do amor, a fim de resolver essas questões.

Esses temas não precisam ser polêmicos se não partirem de inverdades manipuladas pelo sistema e/ou opinião pessoal de cada participante da conversa. Se a gente tiver empatia suficiente para não falar da PRÓPRIA  necessidade, mas da necessidade universal, podemos chegar a consensos.

E isso, meus amigos, eu aponto como principal razão para eu não ter encontrado, ainda, espaço para falar de política e sociedade em grupos das comunidades mais espiritualizada em que estou inserida.

Ou vou numa ONG, igrega pra caridade ou passeata, ou meus papos são censurados. Quero trazer o assunto social para a comunidade espiritualizada, que se preocupa com o desenvolvimento pessoal  e principalmente no amor incondicional. Ou encontrar essa tribo que é consciente e vai numa passeata pela paz, não contra a guerra, que já saiu do paradigma do medo e escassez, e conversa a partir da premissa da abundância e amor.

A maioria das vezes, mesmo as pessoas mais espiritualizadas falam de política e questões sociais a partir de inverdades do sistema e da nossa necessidade pessoal, o que torna essa abordagem contraproducente, cheia de briga de ego.

A verdadeira necessidade da sociedade brasileira não está nas casas de classe média pra cima, as verdadeiras necessidades sociais estão na periferia sem saneamento básico, sem serviço público, na população negra que ainda é discriminada, nas mulheres tratadas como objetos, nos homossexuais espancados. Essas e outras são verdadeiras necessidades sociais.

Isso tudo é a raiz de toda crise, incluindo a econômica.

Nós podemos e devemos encher nosso copo primeiro, mas não em detrimento da seca dos outros. E mesmo entre pessoas “conscientes”, falta isso. Provavelmente porque sobra televisão.

O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade. Albert Einstein

Nesses grupos voltados à autoconhecimento e espiritualidade investimos nosso tempo para conhecer a nós mesmos, observar nossos relacionamentos próximos, encontrar nossas crenças pessoais de como prosperar em nossas vidas e fazemos caridade com um propósito de nos sentir bem.

Vemos desgraças e praticamos a compaixão, enviando luz e amor (mas às vezes o medo e reclamação prevalece – esquecemos de nos conectar à fonte). Ajudamos pessoalmente se necessário, pontualmente, o que estiver de fácil acesso.

Porém, nessa jornada interior, frequentemente ignoramos o sistema opressor externo. Ignoramos o sistema porque ele é feio e ruim, e nós queremos positividade! Energia boa!

Às vezes ignoramos porque ele nos serve, enquanto tira do outro (texto sobre isso).

Só que, muitas vezes, damos pouco valor a movimentos sociais, caminho eficiente de quebra de paradigma e mudança de realidade macro.

Pode ser apenas um pequeno descuido ou porque nos perdermos em nossos próprios dramas pessoais e esquecemos de olhar o âmbito social. Seguimos a risca e somente aquela máxima: seja a mudança que queremos ver no mundo. E realmente fazemos isso, viramos pessoas melhores.

Mas aí nos deparamos com essa realidade:

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Reagimos com um choro no Facebook, mas ficamos indiferentes ou pouco falamos sobre isso, como um tabu, porque queremos manter os assuntos numa frequência elevada, num astral legal.

Mas como ficar indiferente com esse tipo de realidade? Não tá bom pra gente que deseja que todos sejam felizes. Tá ruim pra quem tem compaixão. Eu me sinto desconfortável. Quero mudar isso.

Devemos evitar noticiários e propagandas, sim, porque não são energias boas nem falam a verdade. Mas os movimentos sociais mostram o que a mídia esconde: a realidade cruel de um sistema opressor. Porém, por muitas vezes estarmos numa zona de conforto social, preferimos ignorar que existe algo tão ruim perto, ficamos tocados de longe, fazemos uma caridade aqui e outra ali. Tentamos ignorar esses assuntos polêmicos. Afastamos isso de nossas vidas, pra periferia, e fica de ponto turístico pra gringo. Nós, como pessoas conscientes, deveríamos olhar para isso com um olhar mais crítico.

Como disse uma vez a Flavia Melissa: não importa o quão fresco está o sanduíche, ninguém vai querer come-lo se tiver uma porção fresca de cocô. Eu não vou descansar enquanto não tentar mostrar esse lado da realidade, pois por mais curada que eu esteja, a realidade macro de injustiça social é o cocô do meu sanduíche e eu vou trabalhar para impactar o máximo de pessoas possível sobre esse assunto. Por isso estou escrevendo sem parar sobre esse assunto há vários posts.

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Claro que primeiro eu preciso ser a mudança, me curar do máximo de feridas possível, para clamar por mudança sem ser hipócrita, mas observo muito na comunidade espiritualizada um alto grau de negligência para falar sobre assuntos sociais e políticos – são tratados como tabus porque como é um assunto que impacta diretamente o status quo, queremos evitar de mexer. Quero dizer, é legítimo ser próspero e abundante, encontrando suas crenças limitantes pessoais, mas ignorar a realidade social é temperar seu sanduíche gourmet com cocozinho.

Devemos falar sobre isso. Pelo espírito e não pelo ego.

Não é porque a violência é comum que ela é normal. Precisamos ter um olhar crítico às injustiças sociais e os movimentos que pedem por igualdade. Precisamos ir nas raízes dos problemas para resolvê-los dali.

Assim como o thetahealing encontra as crenças-raiz dos indivíduos, devemos refletir sobre as crenças-raiz sociais.

Sim, a violência é um problema generalizado – manifestação de uma questão histórica não resolvida.

Estamos em uma sociedade doente (física, emocional, mental e espiritualmente falando) e estamos violentos. Digo “estamos” porque TEM CURA, somos seres amorosos.

Para alcançarmos esse ponto de vista, no entanto, precisamos não apenas ter compaixão, mas ter atitudes compassivas.

É relativamente fácil ir à uma prática espiritual  em grupo e encontrar o amor incondicional dentro de si. Difícil é, quando vê um ato de injustiça acontecendo, interferir com compaixão, não ignorar. Esse é o verdadeiro ato de compaixão.

Como feminista, vejo pessoas pregarem a igualdade e justiça, mas se calarem diante de um amigo machista.

Qualquer pessoa que não corresponde a um padrão hetero-normativo e “escravo do sistema” é oprimida e precisamos estar conscientes disso em nossas relações diárias.

Precisamos saber que,  talvez, a empregada doméstica tenha um grande potencial que foi sequestrado dela, e talvez você ajude a perpetuar em suas atitudes. Talvez o filho do motorista precisa de ajuda emocional, mas como é mais um moleque da favela, ignoramos.

Não podemos dar as costas para grupos de pessoas que tiveram seus direitos historicamente negados e são oprimidos por uma pequena parte privilegiada (leia-se: homens, brancos e ricos / herdeiros e “machos-alfa” da casa grande) que controlam os bancos, mídia, indústrias e a política em geral.

A opressão é o mecanismo de defesa desses psicopatas no poder para manter o status quo da época de nossos antepassados. Ou seja, de uma época ultrapassada, em que os seres humanos eram mais instintivos. Hoje, estamos mais conscientes.

Precisamos empoderar, principalmente, quem está vulnerável e não apenas perpetuar o status quo.

Eu sempre falo dos meus privilégios aqui, e pra mim foi relativamente fácil me curar. Acho que fez parte da minha missão. Difícil é fazer um trabalho de crença em um morador de periferia que a única coisa que faz é lutar por sobrevivência.

Primeiro precisamos, quem não está nessa situação e tem mais oportunidade, estar conscientes e falar sobre esses problemas. Falar, abertamente, sobre nosso papel enquanto parcela privilegiada da população.

E depois saber que, ainda que pareçam perdidos e limitados pelo ego, os MOVIMENTOS sociais podem mudar o Mundo.

Aí você me diz:

“Eu não sou nem racista, nem abolicionista; não sou machista, nem feminista: sou humanista”.

Se o seu “humanismo” significa que você é a favor de que todas as pessoas devem ser tratadas iguais independente de suas características físicas, suas orientações sexuais ou gênero, seus estilos de vida, seu caminho de maneira geral, – se você acha que todos devem ser felizes independentemente de suas escolhas, você é a favor do movimento dos negros, das mulheres, dos gays, dos pobres, de todo mundo. Você é feminista e não sabe.

Você só está negando um rótulo. E tudo bem não querer rótulos, rótulos são um saco mesmo.

Só não seja contra os movimentos sociais

Não precisa sair por aí, levantando bandeira, defendendo e brigando por uma causa. Mas seja a “humanista” não sendo indiferente a essas informações como a da foto acima.

Evite fazer piada com os movimentos ou dizer que “as pessoas vêem racismo/machismo em tudo” fazendo pouco caso, porque isso desqualifica. Tenha compaixão e defenda o amor e a justiça.

Não seja contra nada apenas porque na sua experiência eles não têm relevância. Se não quer ajudar, não atrapalhe. E se quiser ajudar com amor, sendo verdadeiramente “humanista” (ou humanitário, acho que esse é um termo melhor) quanto mais amoroso você for e tiver dentro do movimento, mais amoroso o movimento será. Eu sinto isso nas minhas falas em prol do movimento feminista, por exemplo.

Pare de resistir aos movimentos sociais, você vai entrar no fluxo de um novo paradigma. Converse sobre isso, com quem sofre. Entenda os lados, procure o amor nesses movimentos. Identifique o seu, pois se você não for homem, rico e branco, provavelmente tem uma causa sua pra abraçar. E se você for privilegiado, assuma seus privilégios e tenha compaixão.

Não resista, a não ser que você tenha, de fato, algum benefício sendo do contra. Mas aí, meu amigo, você não é humanista, é egoísta.

Juro que não sei a resposta, mas realmente queria refletir sobre isso.

 

Por fim, veja isso sobre a violência das mulheres: http://papodehomem.com.br/o-agressor-dorme-no-homem-comum/

E isso sobre padrões de beleza da sociedade: http://capricho.abril.com.br/vida-real/olhe-espelho-todos-dias-seja-feliz-sua-propria-imagem-942083.shtml

E um recado a quem acha que o “politicamente correto” deixou a vida chata (chata pra quem, né? Pra quem é oprimido sempre foi chato):

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