A Forfun acabou, mas três de seus integrantes formaram a banda Braza, um novo projeto que eu já estou amando. Não são letras na pegada do Polisenso, que é o trabalho deles que eu mais gosto, mas as letras estão bem maduras, cheias vida e crítica social – o que eu adoro. Tem também uma parcela de misticismo e, sim, me fez pensar e escrever sobre. Essa é uma música que me lembra a importância do autoconhecimento e fé.

A música é complexa, então aviso de textão!

Oxalá – Braza

 

Subi a escadaria para me benzer
E pedi ajuda para Oxalá
Consultei os astros para entender
Lua cheia, eu me batizei no mar

(Pra mim, um ritual. Não necessariamente um ritual que sempre acontece, mas também não necessariamente pontual. Achei lindo esse refrão. Muito místico, espiritual. Quando não temos mais respostas para nossas perguntas mundanas, não deveria ser vergonha nenhuma recorrer a fé. Até porque, é melhor ser feliz tendo fé, acreditando em algo que a sociedade pode julgar “bobo”, do que ser infeliz, permanecer perdido e com graves crises existenciais. De acordo com o livro Para conhecer a Umbanda, de Ademir Barbosa Jr., que li ano passado, Oxalá é o Orixá maior, responsável pela criação do mundo e do homem, e é pai de todos os outros Orixás – que é divindade que habita a cabeça, na tradução que aponta o autor. Oxalá velho é sincretizado com Deus cristão e Oxalá novo com Jesus Cristo. Oxalá, ainda segundo o livro, representa sabedoria, serenidade, pureza do branco e o respeito. Seja qual for a crença, peça que será atendido.)

Habeas Corpus moral,

(Habeas Corpus é o pedido de liberdade, então considero o “Habeas Corpus Moral” como a liberdade do Ser espiritual. Em última análise, não há certo ou errado, temos nosso livre arbítrio para sermos quem realmente somos. Nossa sociedade tem regras morais, mas essencialmente, não existe algo melhor ou pior. A moral é orgânica, assim como os seres vivos. Ainda somos conservadores, não gostamos de mudanças abruptas, mas a moral, em última análise, é uma ilusão. Na verdade, vejo a moral como individual, cada um tem a sua, de acordo com sua caminhada. Moral é costume, cultural. Se cada ser humano é um universo, temos liberdade para sermos quem somos, independente de moral. Isso não anula, ao meu ver, as regras de convivência, pois “o sentido tá todo no coletivo”. Essa ideia pode, no entanto, nos libertar de amarras socias).

Apneia mental

(Apneia é falta de ar momentânea, então acredito que seja uma crítica às pessoas que parece que não pensam direito, seguem “a moral e os bons costumes” sem questionar. Difícil saber o que quiseram dizer exatamente, mas eu acho que é isso.)

Imperativo espiritual

(Imperativo é ordem, uma autoridade. “Faça isso”, “seja isso”, “comporte-se assim” – muitas religiões são “caga regras”, mas será que deveria existir uma forma pronta de se conectar com a espiritualidade? Será que existem caminhos pré-definidos? Acho que é essa a proposta da canção, mostrar que cada um tem seu caminho, que ninguém precisaria obedecer ordem de ninguém quando o assunto é fé. Uma trabalhadora da luz pode e deve compartilhar o que funciona pra ela, ser o exemplo, indicar caminhos, mas nunca obrigar ninguém a nada. Espiritualidade é livre arbítrio, escolhas, mas muitas pessoas confundem com religião, que tem muitas regras e dogmas conservadores e atrasadíssimos.)

O fogo queima, o coral corta

(Causa e efeito, coisas da vida mundana)

Se não há risco a criatura é morta

(Somos seres orgânicos, nossa vida é feita de experiências e, claro, risco. Somos animais e não robôs – embora muitas vezes eu considere que muita gente está viva, mas ainda não nasceu de verdade. Sem arriscar, perdemos uma grande parte da vida. Algumas pessoas se referem a quem está muito no ego de zumbis, ou seja, mortos-vivos, mas eu tenho pensado na ideia de que eles não morreram, apenas ainda não nasceram. Quando nascemos de verdade, aprendemos que o risco é inerente e muito melhor do que a zona de conforto. Sem risco, não há vida. Isso que algumas pessoas chamam de despertar. Uma reflexão: vive melhor quem vive mais, tentando controlar todas as variáveis para não haver risco e morrer “de velho”; ou mais intensamente, se colocando em mais riscos, se abrindo para mais experiências?)

Só você pode se conhecer
Seu equilíbrio, sua verdade

(Muitas vezes olhamos tanto para fora, criticamos e queremos controlar o externo, que esquecemos de ver nosso interior. Acreditamos na verdade imposta pelo sistema e esquecemos nossas verdades. Cada um sabe – ou deveria saber – sobre si, tudo que já passou, todos os pensamentos que tem, os sentimentos que sente. Ninguém, nem seu melhor amigo ou parceiro, conhece você mais que você mesmo. Equilibro está em saber quem você é na essência e viver essa verdade.)

Se aquele instinto é uma necessidade
(Muito bem colocado. Pela minha bagagem como mulher, me veio, na hora, o “instinto masculino” de assediar mulheres na rua e nos tratar como objetos sexuais, de desejo. Com a expansão da consciência e a prática da empatia, conseguimos equilibrar nossos instintos com nossa verdade – aquela que só se você se conhece bem sabe, só se já olhou pra dentro em silêncio. Será que fazer sexo com alguém sem consentimento é uma necessidade, ou será que a necessidade real, em si, é fazer sexo e, portanto, dá pra controlar bem esse instinto agressivo? Esse foi só um exemplo, o primeiro que me veio, mas é lógico que preciso citar aqueles sentimentos instintivos, por exemplo, se sair na mão com alguém que você está em desacordo. Somos seres conscientes, não precisamos viver no instinto. Deve ter gente que vive assim, ou porque tem algum distúrbio mesmo ou porque foi criado de uma forma mais animalesca. Não podemos julgar os outros, mas se cada um se conhecer e reparar em seus instintos, poderá analisar se são necessidades e, se são, quais as melhores formas de satisfazer.)

E a trindade nesse trinômio
Você, seus anjos e seus demônios
(Na espiritualidade, o número três é bem significativo. Corpo, espírito, mente. Pai, filho, espírito santo. Os anjos, representando o “bem”, os demônios representando o “mal” e você representando a união de tudo, de toda a dualidade. Somos tudo isso, não somos bons nem maus, apenas somos. Fala-se que temos, dentro de nós, um lobo bom e um lobo mau, mas sobrevive quem a gente mais alimentar. Se a gente vive no paradigma do amor, a gente consegue alimentar o lobo bom e domar o lobo mau. Mas se a gente vive no paradigma do medo, alimentando o lobo mau, com sentimentos ruins em relação os outros, ou a si mesmo, consumindo informação negativa, a gente vai perdendo de vista o lobo bom. Os demônios também têm uma função, não precisamos bani-los de dentro de nós, basta não deixar levar por eles.)


O que eu estou fazendo da minha vida?

(Pergunta ótima a ser feita todos os dias)

Lambendo a carne viva com o dedo na ferida
Brindando a existência e aprendendo a distinguir
A hora de refrear, a hora de transgredir
Chorando minhas dores, moldando meus valores

(Eu gosto de cutucar minhas feridas. É nisso que se baseia a terapia holística. Sempre encontro respostas quando faço isso. A partir do momento que o indivíduo entra num caminho de autoconhecimento, ele aprende a desfrutar a vida e vai tentando manter em equilíbrio as decisões tomadas. Como partimos do princípio que tudo pode, não há certo nem errado, ele mesmo precisa decidir quando precisa parar, quando pode passar o limite. Às vezes até da lei e da moral, afinal, como seres vivos, orgânicos, não cabemos em uma caixinha, mas quando a gente se conhece, sabemos nossos próprios limites e regras para se manter em equilíbrio, em paz – mas isso também muda, conforme o tempo passa e vamos moldando nossos valores. Como temos tudo dentro de nós, precisamos dar espaço aos sentimentos, chorando as dores. )

Tacou pedra, finto a pedra.
Tacou flores, voltam flores
É uma linha tênue, é menos que um semitom
Quando o bom não é o certo, quando o certo não é bom

(O caminho do bem: se alguém me prejudica, ao invés de revidar, eu dou a volta por cima. Se me dão amor, volta amor. Mesmo sendo difícil de identificar, mesmo que fiquemos cheios de dúvida, cada caso é analisado a partir da minha verdade, do que eu acredito ser melhor pra situação.)

Ah minha vida toda!
Um ato de desapego
Do corpo, do casamento, do parente, do emprego

(Desapego. Um dos preceitos mais importantes da vida. Nada é permanente, o corpo envelhece e morre, o casamento pode não continuar, o parente se afasta ou morre, o emprego pode, de repente, não estar mais disponível. E aí? Se a gente se apega, sofre. Se a gente desapega, fica mais fácil de seguir em frente e se abrir para o novo que o universo está preparando.)

gabi-gratidaoFé é confiança, no que quer que se invista
(Conheça a ti mesmo, escolhe um caminho e vai na fé. Confia no Universo, em Oxalá.)

Tem fé o ateu, tem fé o cientista
(Fé é confiar em algo mesmo sem provas concretas, todo mundo tem fé em algo, nem que seja em si mesmo. Se não há fé, é bom encontrar alguma)

Me curvo humildemente ante aquilo que não sei
(Lindo ♡)

Acredito no Amor, ganho o jogo no fair play
(Jogo limpo, sempre no amor)

Só não espero a providência pra encontrar a minha essência
Pois não há um salvador que nos tire essa incumbência

(Muito conveniente essa colocação. Às vezes uma pessoa espera um milagre de Deus pra mudar sua vida, achando que só esperar, rezar e pedir é o suficiente. Acho válido rituais do refrão, mas pedir e só esperar é permanecer na zona de conforto, na inércia. Enquanto não entendermos quem somos em essência, nos desidentificando com o ego, desapegando do que não nos serve mais, não vamos encontrar o equilíbrio. Precisamos ser nossos próprios salvadores. Encontrar o divino dentro de nós, nos livrar do que realmente nos faz mal, o que nos machuca. Relacionamentos indignos, pensamos negativos, transgredir as próprias regras e permanecer em situações que nos prejudica são as primeiras coisas que precisam ser mudadas. O que me ajudou muito foi eu ter em mente quem eu sou, quais minhas habilidades e desafios. Somos nossos próprios salvadores. Se estamos vivos, temos uma missão. Identifique a sua e mergulhe em você mesmo – tome atitudes, faça algo por você! )

☆☆☆☆☆

Com certeza você tem uma outra visão de partes da música, que não a minha. Isso não significa, necessariamente, que estou certa e você errado, apenas que temos bagagens diferentes. Por isso, agradeço muito se você compartilhar o que você pensa sobre isso.

Minha admiração, cada vez mais, a esses artistas maravilhosos (todos do Forfun, até o que não tá na Braza).

Agradeço comentários e compartilhamento!