A cura vem de abraçar a sua criança e perguntar porque você tem os problemas que tem hoje. Parece cliché, exagero, mas não é. Funciona, é só tentar.

Só que dói, é triste voltar ao passado e reviver aquele sofrimento, mas é necessário. Se não revivemos e resolvemos essas questões, elas ficam na sombra.

Experimenta entrar em uma sala escura. Mesmo que você conheça, se há bagunça espalhada e tudo fora de ordem, a chance de você tropeçar é bem grande. Se tiver lixo e sujeira espalhados, então, você ainda vai sentir o cheiro e não vai conseguir limpar. Mas experimenta acender a luz para colocar em ordem e fazer uma limpeza. Sucesso. Com nosso inconsciente, é a mesma coisa. Os problemas não se vão apenas porque estão no escuro.

Veja um exemplo pessoal de uma lembrança que tenho. Os fatos podem não ser exatamente te esses, mas essa foi a lembrança. Quando eu tinha uns nove anos, eu gostava de um menino na escola que também gostava de mim. Ele desapareceu, de uma hora para outra. Disseram que ele havia ido para outra cidade. No ano seguinte, nos reencontramos em outro colégio. Além de minha cabeça ter ficado confusa, por terem mentido para mim, não confiava mais que ele iria ficar por muito tempo. Continuamos amigos, mas algo ficou marcado.

Meus relacionamentos nos últimos anos foram intensos porque, provavelmente, eu agarrava e não deixava o cara ir embora. Como conscientemente eu não queria ser chiclete, eu deixava ir os que eu notava que eu estava sufocando. Porém, por ressonância, atraí quem curtia intensidade também. Não que seja errado, não que tenha me feito mal. Porém, era uma sombra. Eu me sentia carente demais e queria curar isso. Esse foi, então, o primeiro desbloqueio do processo.

Após esse acontecimento, seguindo minha vida, entre 11 e 12 anos, idealizava meninos perfeitos nos meus colegas de classe. Achava que eles eram os meninos das novelas, da Malhação, que eles já eram maduros (mesmo sabendo que não, que meninas amadurecem antes), que iriam me proteger, que eu teria um namoro longo na adolescência e casaria com um grande amor. Mas eu só idealizava, pois eles eram moleques, não queriam namorar, só queriam jogar bola, se destacar entre os amigos e curtir a adolescência/infância.

No dia do meu primeiro beijo, o menino que eu gostava estava lá na boate, mas ele não quis ficar comigo. Não só não quis ficar comigo, como fez a fita do amigo dele para mim, e eu dei meu primeiro beijo em um amigo do menino que eu gostava.

E, então, segui a vida. Seguia gostando de quem não gostava de mim e na minha percepção equivocada, todos os meninos me rejeitavam. A cura veio, porque percebi que não, na realidade, eu até fui bem paquerada na escola, mas ainda que tivesse tido a rejeição desses meninos específicos que eu queria, já foi.

Só que me senti rejeitada a vida toda, por conta da minha percepção equivocada. Então, além do medo de perder por conta da primeira história, ainda tinha a crença que eu teria que dar graças a Deus que algum me queria, porque seriam raros os casos, já que “sempre” fui rejeitada.

Mas não mais. Mesmo. A cura veio.

Veio porque eu fui atrás dela, fui lá no fundo, coisas de 20, 15 anos atrás. Guardados na escuridão.

Outros detalhes da cura, prefiro guardar, mas contei um pouco para servir de inspiração: faça a pergunta certa e vá atrás das respostas na sua infância. Na sua adolescência. Nos seus traumas.

Desconfie se não tiver lembranças, elas estão guardadas em um lugar muito escuro e realmente precisam ser trabalhadas. Principalmente se você não se considera alguém feliz e pleno.