Imaginei dois universos, com suas paredes infinitas e em eterna construção. A referência, o ponto de vista, era cada uma das consciências que habitavam o centro desses universos.

As paredes de uma das consciências eram formadas por valores sociais, aprendidos desde cedo na família, escola e igreja. Sem questionamentos e transgressão, ou o caos seria estabelecido. A consciência era guiada pelas leis, verdades absolutas inquestionáveis vindas do exterior. Homens e mulheres com papéis bem definidos como máquinas que estão aqui apenas para reprodução da espécie e salvação segundo algumas leis romanas. Embora de enorme proporção, a parede que cercava essa consciência era restringida pelo medo de se perder em seu próprio Ser, infinito e eterno. Onde mora o Caos. Mais seguro, portanto, era se limitar às regras estabelecida por outrem, sem questionar para que tudo permanecesse na aparente ordem.

E era exatamente o que a outra consciência almejava: questionar todos os valores para que todos e todas fossem verdadeiramente livres. Essa consciência não aceitava regras sociais, os padrões e valores sem fundamentos. Seu maior medo era ter que se limitar a ser quem não era, quem queriam que ela fosse. E queria que todos fossem livres para fazer suas escolhas. Para essa consciência, o caos era inevitável e ao questionar o que não vale mais, o universo ficaria maior. A expansão era o objetivo dessa consciência. Queria alcançar a plenitude sendo autêntica, sendo quem veio pra ser, sem medos e sem limites – aliás, medo e limites existiam, mas o tesão era supera-los. Não existia medo que durasse muito tempo. O medo era substituído pelo amor e certeza que tudo estava bem, que do caos surgiria a ordem.

As duas consciências se encontraram e argumentavam que estavam certas. Cada uma era um Universo e nenhuma poderia ser considerada errada. Tudo era uma questão de como cada consciência fora criada, formada. Com um pouco de empatia, as duas consciências compartilhavam seus universos. No entanto, o medo do caos era muito forte para a consciência conservadora, enquanto o medo da mesmice era fortíssima para a consciência libertária. Quando a consciência libertária aceitou que a outra vivesse em seu mundo de medo, seguiu sua vida em paz, sabendo que, assim como ela, cada um tinha o direito de viver como bem entendesse. Quando a consciência conservadora aceitou que a outra vivesse em seu mundo de infinitas possibilidades, teve medo e a atacou indiretamente: na fala, desejou que vivesse como quisesse, mas na realidade não queria que transgredisse nenhuma regra social – e faria qualquer coisa para convencer que a liberdade era perigosa. Não soube seguir em paz, pois seu padrão era o medo.