Foto: eu no sarau da Biblioteca São Paulo apresentando meu trabalho para o pessoal <3

Homens, eu admito: estava errada o tempo todo. Eu estava ferida e sempre que reagi foi culpa da minha ferida infantil. Por sorte e privilégio, tenho feito terapia desde os 10 anos e já deu tempo de curar diversas mágoas em diversos aspectos da minha vida. Inclusive sobre o sistema / Matrix. Inclusive sobre machismo. Tenho muita coisa pra curar ainda (não gosto nem de pensar nisso, que me desespero), mas essas coisas que me incomodavam no dia a dia, que me feriam sempre – essas micro agressões, eu já estou curando. O machismo não podia tirar meu centro de paz, nada deveria ter essa força, fui atrás da cura. Pode parecer mimimi à primeira vista, se seu preconceito falar mais alto e tiver preguiça de ler. Se for isso pra você, perfeito, nem precisa seguir lendo e me deixe com meu mimimi.

No entanto, se você quer construir algo coletivo como eu, mergulhe nesse relato de coração aberto pra me ler – se não conseguir, apenas procure ver se o que está escrito tem lógica. Eu procurei ter o máximo de empatia e compaixão pra escrever, como os meninos andam me pedindo ao me expressar. Acho que posso ter isso de volta. Mas lembre-se de que, ao se colocar no meu lugar, nossas lógicas costumam ser diferentes:

Homem:
A —– B

Mulher
A ~~~~~~~~~~~~~~~~%%%% B

E isso não é ofensa pra mim, porque eu realmente penso de forma diferente de alguns homens e gostaria de ser respeitada por esse simples fato.

Obrigada, seguimos sem preconceitos, de corações e mentes abertas – lembrem-se NÃO É NADA PESSOAL COM VOCÊ, é sobre MIM, sobre meus processos.

E se mesmo assim você se ofender: veja o vídeo “incomodou, doeu, leva pra casa que é seu” da Flavia Melissa sobre autoconhecimento e sinto muito.

Vamos lá:

Descobri que a vida toda fui iludida pelos homens com quem me relacionei, pois poucos foram os que realmente admitiram que poderiam estar me oprimindo de uma forma padrão, pra mim, machista.

Todos, SEM EXCEÇÃO, criticam, mesmo de forma amorosa, o meu feminismo, a forma que eu denuncio o machismo. Algumas mulheres também, dizem pra eu abrir mão dessa pauta. Alguns dizem que não vou conseguir evoluir se permanecer nesse ciclo que eles chamam de briga, eu acho de consciência, resistência, ação e transformação.

Como se o problema fosse minha forma de me expressar e não o machismo deles. Logo eu, a feminista índigo que quer ser cristal e que nasceu pra se expressar haha. Isso eu poderia levar como tiração (e machismo): trabalho com comunicação e me falam que estou me comunicando mal – sei que não sou perfeita, mas tem funcionado muito bem a forma que venho me expressando e QUEM SÃO essas pessoas pra dizer que não? Mas não vou brigar mais.

Nesse momento, peço que reflita se não seria errado questionar a forma que uma comunicadora se expressa, enquanto o texto Feminismo para Homens do Papo de Homem, escrito por um homem, faz o maior sucesso. É disso que falo (e que pode ofender) quando repito: “quantos pintos / diplomas preciso ter pra ter ALGUM crédito ao falar de machismo, ou da luz que o ilumina, sem ser criticada infinitamente?”

Essa é uma das críticas que me pego fazendo ao machismo, algo de fora de mim. Mas o texto é sobre meus processos, certo? O que tem a ver? Além de eu também ter atitudes análogas ao machismo e ter cada vez mais consciência disso, agora eu já sei que não existem os outros (tenho um vídeo sobre) não existe FORA.

Existe dentro, existe o Eu. Existe o ego que me faz sentir dor. Ou seja, não me iludiram, fui eu que me iludi.

Fui eu que coloquei expectativa no comportamento dos homens sem conhece-los a fundo. Enquanto eu pedia fala pra apontar um ato de machismo, tudo que eu ouvia era mais machismo, e ao invés de meditar e manter a paz, eu estourava, deixava meu ego mandar em mim. Minha criança ferida chorava e gritava. Urrava.

Eu queria porque queria que eles entendessem meu sentir, minha criança queria isso. Achei que era o certo, que todos faziam de forma automática como eu. Mas eu que aprendi errado. Não me ensinaram diferente. Não foram didáticos. Talvez tentaram, mas não entendi a lógica. Não se colocaram no meu lugar pra entender minha lógica e poder me dizer, seguindo minha lógica, que os homens simplesmente são mais racionais que as mulheres e por isso eles podem, sem quer, ignorar o Sentir do Outro – por instinto e falta de consciência nesse ato.

E agora – trabalhando às vezes sozinha e às vezes com ajuda profissional – entendi muitas coisas nos últimos tempos sobre mim e como a sociedade machista me bloqueava (ou bloqueia). Disso que se trata autoconhecimento (eu tive sorte e oportunidade) e assumir responsabilidade (não é obrigação da vítima!!!).

Minha criança já não está mais ferida. Eu já tenho consciência que os homens pensam e sentem diferente de mim. Eu apenas estava iludida e agora retirei o véu dessa ilusão. Como entendi que eu me iludi?

Percebi que era tudo meu ego.
Basta observar a linguística: EU esperava algo. EU não aceito machismo. Eu. eu.

Eu esperava que, depois de tanto trabalho interno, depois de ter entendido alguns de meus gatilhos sobre machismo e também de aceitar que eu às vezes perco a linha, a calma – eu esperava que depois de tanto trabalhar meu ego, os homens poderiam pensar algo como:

“acho que a Gabi é uma mulher madura que está tentando nos mandar uma mensagem, ela está falando algo lógico, porque não tentar entende-la ao invés de crítica-la infinitamente?”

Ego. Quem sou eu pra querer algo? Ego.

Apenas expectativa criada pela minha mente, e toda expectativa pode gerar frustração.

Eu achava que eles se importavam de forma automática com nossos sentimentos, e que o que eu sentia importava tanto quanto o que eles sentiam. Não menos, nem mais. Igual. Mas sempre que eles começavam a questionar o meu sentir, eu me desiludia. Por que a minha expectativa não era atendida, mesmo se pra ele, fosse o certo.  E eu nem sabia porque eu estava frustrada.

Foram muitos casos de professores, amigos, familiares, ficantes, namorados, conhecidos, chefes, tenho muitos exemplos. Foram também mulheres: coordenadoras de escola e professoras, amigas, familiares…. mas eu sinto muito por elas, pois ao meu ver elas estavam em desequilíbrio com seu Sagrado Feminino, pois estavam obviamente ignorando algo que se chama empatia. As mulheres alinhadas com seu Sagrado relatam que empatia é um sentimento de suas naturezas. NÃO as culpo, não as rejeito, apenas as amo muito, e estarei atenta para sempre acolher uma mana que quiser acolhimento meu.

Percebi que o machismo está muito relacionado com a dificuldade que os homens têm de sentir a dor do outro ser humano, apenas por serem mais lógicos.

Na minha antiga lógica:
Empatia é capacidade de sentir na pele o que o outro ser humano está sentindo sem julgamentos e tomar suas decisões com base no bem estar de todos os seres envolvidos.

Na minha atual lógica:
Empatia é a capacidade de alguém seguir a lógica do outro, sem julgamentos e tomar suas decisões com base no bem estar de todos os seres envolvidos.

Mas às vezes a lógica do outro é o sentir. Qual o meu argumento pra dizer que um homem agiu de forma machista comigo? Meu sentir. Essa é a lógica do oprimido.

O sentir.

Por isso dizem que as mulheres é que podem apontar o machismo com mais discernimento, pois somos nós que sentimos mais. Homens também sentem, mas as mulheres sentem muito mais e os homens são, muitas vezes, beneficiados pelo machismo. Pra quem alega estar fazendo tudo certo, que está sendo apenas educado, eu não discordo. Apenas acredito que a educação machista que nós temos é prejudicial ao desenvolvimento humano, pois inibe o sentir. Dica : assista o poder da vulnerabilidade.

O problema que observo é que o sentir de todas as pessoas fora suprimido. Como sei? Bem, não sei, apenas ando notando que o sentir da mulher é sempre levado como exagero, loucura, falta de bom senso e desequilíbrio; enquanto o sentir do homem é relacionado a homossexualidade.

Isso é machismo, mas eu não posso enfiar goela abaixo de uma pessoa esse entendimento. Não se a pessoa não desejar profundamente compreender e passar por cima do orgulho pra admitir: ok, quero compreender. Em meus processos de autoconhecimento, percebi que eu preciso aceitar o fato de que algumas pessoas não vão nem fazer questão de me entender, mas outras querem e muito entender – e é pra elas que eu preciso sempre melhorar a forma de me expressar. Sempre poderei melhorar.

Não obrigo mais ninguém a nada.

Ainda sobre o sentir, eu tenho uma teoria, mas não sei pra quantos se aplica:

Acredito que os homens são seres amores e incríveis, e que se eles se abrissem pra sentir a dor da mulher, eles não aguentariam de pena, e também sofreriam muito – por serem amorosos, eles não gostam de ver a mulher triste. Pra isso, eu tenho uma sugestão que uso pra mim: quando vem a pena, ao invés de também sofrer e se deprimir por culpa, me vitimizar, eu apenas sigo forte, com COMPAIXÃO. Não adianta muito ter empatia e deixar que a dor do outro me faça mal. Pratico a compaixão e deixo que o Amor reine.

Eu não posso fazer aparecer o sentimento de compaixão nos outros, pois isso é um caminho individual. Eu mesma muitas vezes erro nisso.

Essa é a sugestão que meu processo de autoconhecimento me deixa: ter empatia e compaixão com todos os seres humanos e cada vez praticar mais.

Eu ainda quero que os homens aceitem esses meus pontos abordados, mas já não é mais a criança ferida que fala, mas a adulta consciente que tenho me tornado (ainda faaaaalta).

Eu compreendo que nem sempre dá certo. Compreendo que o ego do homem é frágil, assim como o MEU. Eu compreendo que nenhum homem precisa ser Buda, assim como eu. Eu compreendo que homens erram, assim como eu. Eu sinto empatia e amor, não sinto necessidade de brigar nem encontrar culpados. Perdoar? Eu também não sinto necessidade, porque não estou num patamar acima pra precisar perdoar alguém, eu apenas compreendo e emano amor.

Eu percebi, em meus processos internos, que eu também sou fruto de uma sociedade machista e não estou aqui pra negar isso. Eu também posso reproduzir e tentar me aproveitar do machismo pra tirar vantagem pra mim. Eu também posso reproduzir o machismo, sem querer, pra oprimir alguém. Mas percebi que independente do meu machismo, também sou Feminista.

Feminismo, na minha concepção, é a luz que ilumina o machismo. Quando a luz do feminismo tá muito forte, todas as sujeiras do machismo aparecem. Sei que pode incomodar a muitos, mas quando o machismo está escancarado, muitas pessoas se preocupam mais em diminuir a iluminação pra a sujeira não incomodar tanto, do que limpar as sujeiras e deixar tudo limpinho. Se não houvesse machismo, não existiria nada pra ser iluminado. Essa premissa é muito básica pra se falar de feminismo. Antes de regular a luz, a sociedade precisa ver a merda que está sendo iluminada. Não diminuirei minha luz pra agradar quem ofende as mulheres e nem se importa com isso. Eu me comprometo a trabalhar pra não jogar  meus lixos emocionais em ninguém, mas jamais apagar a luz do feminismo, pois sem ele ainda estaríamos privadas de se desenvolver, sem paz pra evoluir, vivendo como animais.

Prefiro focar em ajudar no empoderameto das mulheres ao meu redor e tentar conscientizar os homens que estão abertos e interessados, a me perder tentando convencer alguém que não tá afim, de algo tão óbvio pra mim

Podem falar que feminista é hostil e segregadora, mas na realidade, o abismo criado foi consequência do machismo, não do feminismo. E se isso não faz sentido pra você, tudo bem. Pra mim, faz. E muito.

Felizmente, tem funcionado meu mantra “apenas seres de luz vão me ver”, portanto me coloco em poucas situações em que sou oprimida. E tenho empatia e compaixão com as manas que ainda estão sendo oprimidas. Além disso, mesmo eu tendo a consciência de que os homens não são todos maus e que apenas atraio pessoas boas, saibam que ainda não estou 100% segura. Andando feliz na rua e educadamente responder um bom dia pra um cara, ele pode me assediar mesmo, achar que dei trela. Não existe segurança nessa Selva de Pedra que é o habitat dos humanos no Planeta Terra.

Minha utopia é andar ainda mais segura, sem medo, sem necessidade de estar acompanhada, sem hostilidade. Sei que não vou poder ver isso acontecer nessa vida, mas aguardo amorosamente, se análise que fiz de mim ajudar pelo menos UM homem refletir sobre tudo, cumpri meu papel <3

Observação importante:

Me conhecer foi um privilégio que tive e chuto que 95% (pelo menos) das mulheres não tem esse privilégio.

Autoconhecimento ainda é privilégio!!!

Eu ou ativista do autoconhecimento, sei como é difícil. Nosso ego é fogo.

Precisamos acolher TODAS as manas que estão sofrendo, sentindo a opressão – sem julgamentos. Precisamos ouvir os gritos dela, entender os motivos de ela estar sendo hostil. Depois, com calma, podemos conversar com ela, mas jamais deslegitimar a fala dela por conta da hostilidade.

E mais: mesmo quem entende tudo isso (autoconhecimento) e não sofre com o machismo, a forma que elas encontraram pra expressar suas ideias ainda é muito silenciada. Assim como a minha voz costuma ser diminuída. Não mais. Sou grata!

Ah, e esse texto vale de reflexão pra todos os tipos de opressão. Todos nós podemos ser opressores de forma inconsciente.