Ser mulher e querer ocupar a rua vazia de domingo, onde apenas os homens estão andando livre e sorridentemente, é um desafio. Sair de casa pode ser assustador, ainda mais sozinha, mesmo confiando na reza forte de nossas mães . Estou indo pro evento, sozinha, encontrarei meus amigos lá, esperando o ônibus me senti mais segura porque tinha um casal e um senhor, mas antes disso os homens da vendinha de flores aqui de trás já me comeram com os olhos quando eu cheguei e um deles veio lenta e assustadoramente dar “boa tarde, linda” a uma garota que passava ouvindo um som e fumando seu cigarro. A rua, por direito, é nossa. Por efetiva ocupação, ainda não. A rua é hostil, no mínimo ameaçadora. Se você é mulher, não pode sair sozinha, muito menos arrumada, bonitona, sem que a todo momento um homem diferente te seque. Porque os homens fazem isso o tempo todo. Não todos, mas muitos e o tempo todo, tornando a experiência de sair de casa em um domingo, para uma mulher, assustadora.

Pode parecer banal, mas a todo minuto precisamos ficar atentas de forma desproporcional. Sei que nunca podemos baixar a guarda, mas pra nós é fora do normal. Agora pouco, quando eu saía de casa, um homem passou de carro olhando tanto que achei que ele ia parar e oferecer carona. Não façam isso, homens. Isso dá medo. Não conheço você, não sei sua intenção. Se você é mulher e sai arrumada e confiante, pode estar fazendo um convite pra qualquer um de tocar e você nem sabe. Porque mulher ainda é pública. Ainda é posse de homem. Porque você não é livre se você for mulher, você não pode ser tão livre e querer não ser censurada, olhada, observada. É praticamente o preço de ser livre: ser assediada, abusada e tocada. Na nossa sociedade, você ainda não pode ser mulher sozinha na rua, porque corre muito mais perigo de ser ofendida de forma gratuita, ter uma homenagem no banho de um desconhecido mais tarde. Talvez você que esteja lendo isso não faça de propósito, mas é provável que, em algum nível, faça. Pode ser sutil, algumas pode nem perceber o olhar, a energia sexual desprendida, mas outras sentem. É preciso estar consciente. Não somos nós, mulheres, seguramente, que precisamos mudar nosso comportamento na rua. O que precisa mudar é a programação mental de TODA sociedade que as mulheres estão na rua para os homens. Aprenda, de uma vez por todas, as mulheres estão na rua porque elas têm direito de estarem ali – sozinhas, entre elas, cantando, de decote, de saia curta, apertada… como ela quiser.