Nos últimos tempos, algumas pessoas questionaram se eu ser “espiritualista” e “feminista” ao mesmo tempo não seria uma contradição. Bem… Sim! Talvez, aos olhos treinados, condicionados e cheios de esteriótipos, seria uma contradição eu ser alguém que “odeia homens e acha que as mulheres devem dominar o mundo” versus uma “Santa que aceita tudo o que lhe acontece, incluindo agressões físicas e psicológicas, com extrema paciência”.

Para essas pessoas, por eu ser espiritualista, deveria ser imune de opressões e sofrimento, e apenas ficar rezando por melhorias e agradecendo meus privilégios. Enquanto uma feminista sairia às ruas pedindo morte a todos os homens. Mas não, por incrível que pareça, eu me dou o direito de ir contra os esteriótipos que querem perpetuar dessas duas características que nessa vida me faz ser o indivíduo que sou.

Sou feminista, sim. Sou espiritualista, também. Uma coisa não anula a outra, ao contrário, me fortalece e eu sou livre pra viver a vida como quero e, mesmo que questionem a legitimidade disso tudo, eu sou livre pra ser quem eu quero ser – mesmo que, para preconceituosos, eu pareça hipócrita.

Então, resumindo: não! Não é contradição ser espiritualista e feminista ao mesmo tempo. Bem, na verdade, ser feminista só significa que eu percebo (na pele) a opressão que mulheres sofrem diariamente, percebo que existem atitudes que fazem com que as mulheres sejam diminuídas perante a sociedade e entendo que isso tudo é uma construção muito sutil, embora estrutural. O feminismo me faz enxergar tudo isso com muito mais clareza e também me traz a possibilidade de trabalhar em cima disso por uma mudança, ainda que pequena.

Um exemplo óbvio de nossa sociedade machista foi o caso da mulher que foi surpreendida com uma gozada no pescoço em pleno transporte público e o juiz não ter considerado estupro, alegando que não houve violência nem constrangimento. É porra na cara de toda sociedade. Enquanto gritamos que não aceitaremos mais isso, o sistema diz que estamos exagerando, que não foi “nada demais”. É claro, porque não foi com ele.

Ser feminista não significa que eu odeie homens ou que acho que as mulheres deveriam dominar o mundo. Diminuir o feminismo a isso é um boicote óbvio do próprio machismo, só não vê quem não quer. O próprio machismo encontra motivos pra deslegitimar o movimento feminista, inventando, distorcendo e exagerando fatos. O próprio machismo deslegitima a luta das mulheres ao dizer, por exemplo, que só pode ser feminista quem estuda toda a teoria e povos antigos. Antes disso, não podemos nos dizer feministas. Antes de entender toda a teoria, todas as vertentes, todos os movimentos e também suas contradições eu não poderia me dizer feminista, eu deveria ficar quietinha estudando e ouvindo os próprios homens, que distorcem e descontextualizam tudo que vivemos.

Eu estou aqui, na Terra, fui oprimida a vida toda por homens ao meu redor, tinha feridas emocionais profundas geradas por pessoas da minha própria família, de quem deveria me proteger e me amar. Mas sempre fui incompreendida e, por isso, deslegitimada.

Mesmo com tanta dor, me pediam paciência e compaixão o tempo todo, mas bastava eu dizer algo que eles não entendiam para usarem, em minha direção, nomenclaturas com a única intenção de humilhar e desestabilizar. Argumentos tão estúpidos como “sempre foi assim e sempre vai ser” ou ainda “tem funcionado assim desde que mundo é mundo, porque você quer mudar agora?”. Tem funcionado pra quem?

Entendi que quanto mais eu encontro argumentos para sustentar o que eu digo, mais opressão sofrerei, simplesmente porque as pessoas, incluindo eu, tentem a querer manter as coisas como estão, por praticidade. Quanto mais forte a mulher feminista, mais forte o machismo em sua direção, exatamente pra desestabilizar. Além disso, homens vão querer manter os privilégios que eles mesmos alimentam boicotando o feminismo – como o direito que eles acham que têm sobre o corpo da mulher ou o direito que eles acham que tem de nos usar para servir.

Quanto ao meu espiritualismo, não anula, de forma alguma, minha percepção do mundo como é. Aliás, só torna cada vez mais legítimos meus pontos de vistas, pois me deixa muito mais conectada com o Todo e com cada vez mais empatia, pra conseguir sentir o que o outro ser humano passa, mesmo sem sentir na pele o sofrimento.

Minha espiritualidade veio de um vazio interior muito grande, em que nada fazia sentido, por que eu mesmo com tanto privilégio, não conseguia estar em paz. Eu sentia a dor de todo mundo.

Aconselhada por minha mãe, fui procurando mais sobre Deus independente de religião e percebi quantas coisas existem sobre espiritualidade e energia. Sobre a cosmo consciência. Sobre autoconsciência. Percebi que se eu quero mudar o mundo, tinha que começar por mim mesma.

Processos de autoconhecimento foram essencial pra encontrar a Deusa que habita em mim, e também o Deus. Percebi que sou um ser espiritual em uma jornada na Terra, e esse tempo aqui deveria ser aproveitado pra cumprir algumas missões, que poderia ser qualquer uma, mas entendendo sobre minha vida até aqui e família, percebi que tudo me preparou para que eu fosse feminista e ativista dos direitos humanos, em busca de uma sociedade mais justa e evoluída. Também percebo o quanto eu nasci em um ambiente propício a me tornar muito agressiva, por sempre ter me sentido desrespeitada em meu próprio lar e que isso também seria minha lição: aprender a ter mais compaixão e paciência. Mesmo diante de opressores, ser amor, compaixão. Essa foi uma das primeiras lições que o feminismo e o espiritualismo, juntos, me proporcionaram: o machismo é uma limitação do ego de quem pratica e não preciso perder minhas forças por conta dele.

Há anos estou nesse caminho e me conforta. Sempre fui feminista, mas nem sempre de forma consciente. Eu também já reproduzi muito o machismo e até mesmo a misoginia, mas tudo porque eu tinha sido condicionada a isso pela sociedade. Quanto mais consciência eu tomo de minhas atitudes opressoras, mais eu posso deixar de praticá-las. Estar no movimento feminista também me fez ter consciência dos meus próprios privilégios para que eu procure não oprimir também.

O feminismo me fez me dar conta que eu também posso ser opressora, e isso me fez desenvolver ainda mais minha capacidade de amar de forma incondicional e sentir compaixão.

Eu sempre foco no equilíbrio entre o ser espiritual que Eu Sou e a missão do meu ego. Pra me manter espiritualmente conectada eu procuro não me alimentar de energias negativas, pensar positivo mesmo em momentos ruins e também praticar o bem.

Pra entender a missão do meu ego, me pergunto sempre: por que eu nasci eu? Por que tenho esse nome? Por que vim com esses pais e irmãos? Por que com as experiências de nômade que tive? Por que tive todos os privilégios que eu tive? Por que com um pai extremamente opressor, conservador, distante, questionador e que não parece tentar me entender de verdade? Por que vim com uma mãe, por outro lado, aberta ao novo, amorosa, tolerante, compassiva, amiga e compreensiva? Por que eu testemunhei tanta opressão a vida toda? Por que eu consigo perceber que existem pessoas que sofrem mais opressão do que outras?

Hoje, colocando em perspectiva, tudo faz tanto sentido pra mim! Eu aprendi tanto, tenho aprendido tanto por conta das condições em que vim, acredito que tudo faz muito mais sentido do que eu podia imaginar.

Normalmente eu me sinto tão frágil, mas também penso que foi me dada uma responsabilidade tão grande de cuidar de mim mesma, e do mundo, que talvez eu apenas tenha sido condicionada a me sentir frágil, e isso nem deve ser uma verdade absoluta.

Esses dias eu meio que continuei uma conversa num vídeo do YouTube em que, em nenhum momento, ofendi ninguém. Nenhum momento, xinguei ninguém. Só que disse que aquilo era o próprio machismo, e isso foi super ofensivo para os caras que juram que não são machistas. Mas todos caras que comentavam estavam realmente dispostos a tentar me desestabilizar, dizendo que conversar com feministas é como jogar xadrez com pombo (bagunçam e cagam em cima), ou ainda dizerem que eu não tenho inteligência suficiente ou ainda, um homem dizer: “quanto mais explicamos que o feminismo não presta, menos elas entendem“, como se realmente precisássemos de um homem (que é contra o movimento, ainda por cima) nos explicando incansavelmente o que é feminismo e dizendo que “não é machismo, é sexismo”. Por fim, um deles me disse pra eu falar UMA coisa que faz o feminismo ser bom, e eu respondi que que uma das coisas boas do feminismo é eu ter desenvolvido compaixão por esses seres que ainda não percebem suas próprias atitudes opressoras. Nesse caso, a junção do feminismo e do espiritualismo me faz detectar atitudes opressoras sem me desgastar e a prática do diálogo me faz desenvolver argumentos sólidos que, com paciência e resiliência, me ajudam a despertar quem está preparado e tem intenção de ser alguém melhor, de oprimir menos.

O feminismo jamais será bom pra quem se beneficia com o machismo – os próprios homens machistas e mulheres que estão sendo protegidas, de certa forma, por essa estrutura. Isso não significa que o feminismo é negativo, apenas vê nessa perspectiva quem não compreende e, pelo visto, não quer entender. Às vezes homens me faltam com o respeito porque alegam que eu faltei primeiro: acusando-os de machistas. Uma distorção da realidade, porque apontei o machismo já que me senti desrespeitada. Um ciclo vicioso que, apenas quem tem mais consciência nesse tema, acaba tendo que ser a pessoa que corta esse ciclo. No fim, resolvi responder a todos que insistiam em comentar tentando me humilhar: você está certo.

Mas, olhando pela cosmo consciência, como eu poderia ter a missão de combater o machismo através da luz do feminismo, se ele não existisse? Então concluo, por ora, que me entender como um ego que foi machucado pelo machismo e que encontrou, no feminismo, a cura, me faz um espírito livre e maduro de verdade. Não importa o que os outros falam, eu não preciso ser santa nem odiadora de homens, eu preciso continuar sendo eu mesma, o mais autêntica possível.