O argumento é: eu não fui oprimida! Não fui oprimida no ponto de vista machista, e não me deixo ser oprimida porque sou feminista e empoderada. Mas minha classe, “mulheres”, é oprimida constantemente. Inclusive nos nossos próprios lares. Somos oprimidas quando, por exemplo, dizem, à mesa, que “mulher não gosta de piada que precisa pensar”, nos inferiorizando e colocando em xeque nossa capacidade intelectual. Quando dizem que “a fulana é uma mulher casada” quando ela vai sair, reproduzindo o padrão de mulher dona de casa, perpetuando que o papel da mulher é do lar, questionando se ela deveria sair. Somos oprimidas quando, mesmo quem nos ama, não faz um esforço consciente para compreender nossos problemas, das micro-agressões à tragédias; quando dizem, sobre assédio, que “não precisa se incomodar, basta ignorar ou mandar tomar no c*” (como se eu nunca tivesse tentado isso antes – e mesmo assim me sinto incomodada).

E incomoda muito.

A gente se sente oprimida quando um homem quer falar mais sobre feminismo do que ouvir sobre. Quando um homem quer falar sobre “masculinismo”, quando questionam a necessidade da nossa luta.

Incomoda. E muito. Diariamente o machismo nos ataca. E é triste, mesmo quando a gente tá firme.

É triste pela falta de empatia, um atributo tão importante pra convivência entre seres humanos. Incomoda pela deficiência da empatia cognitiva, que é um atributo que se aprende, porém com força de vontade, fazer um esforço consciente.

E por mais amor que haja, se não tem empatia, se não tem compaixão, não é suficiente, porque fere. Porque machuca. E quem ama, teoricamente não quer machucar o outro. E a gente sabe que não é intencional, mas mesmo assim dói. E dói ainda mais quando a gente tenta explicar, a gente sabe que a pessoa tem capacidade intelectual pra entender, mas por falta de empatia, não entende. Talvez por medo de perder o Poder que acha que tem, não quer entender.

E dói. E segue doendo. Sigo ferida, por mim e por minhas irmãs, de sangue e de luta. Dói na alma, por todas as minhas ancestrais oprimidas.

Não vamos nos curar conversando com homens sobre isso. Não vamos nos curar pedindo para que homens parem de ser machistas. Vamos nos curar nos empoderando. Vamos nos curar, conversando com outras mulheres. Vamos nos curar, curando nosso inconsciente coletivo, que guarda tanta dor e sofrimento.

Nós por nós, mulheres.