Eu não conseguia me sentir à vontade diante de algumas pessoas que, mesmo sendo apresentadas a fatos sobre nossa sociedade, ainda ignoram a estrutura em que vivemos e sua própria responsabilidade nesse contexto.

Exemplificando, mesmo em situações de machismo, racismo ou homo e transfobia, algumas pessoas se recusam a admitir que essas opressões são comuns em nossa sociedade e estão em nosso inconsciente, preferem dizer que “nem todo mundo…” ou que “não existe sociedade, depende de cada pessoa”, ou ainda, dizem que alguns comportamentos são apenas brincadeiras e expressões são simplesmente forma de falar (não são realmente o que elas pensam).

Muitas dessas pessoas realmente têm boas intenções, não querem fazer o mal. O problema de negar que essas atitudes são parte da nossa cultura e que podemos reproduzir esses preconceitos e opressões sem a gente perceber é que, bem… podemos reproduzir sem perceber. Podemos ofender sem perceber. Podemos magoar sem intenção de magoar. Podemos acionar gatilhos emocionais sem intenção. Podemos oprimir sem querer oprimir. Ou seja, quando uma pessoa não admite que pode ser opressora, mesmo que seja porque ela tem, no fundo, boas intenções, ela acaba agindo de forma tão cruel como uma pessoa realmente mal intencionada.

Sim! Mesmo uma pessoa se considerando “respeitosa”, “gente boa”, “pessoa de bem”… Dizer que uma atitude opressora é brincadeira, forma de falar ou apenas costume, é tão cruel como se fosse uma injúria ou atitude intencional, pois a consequência é a mesma! E mais: ainda segue legitimando a violência sofrida pelas pessoas que são alvo daquela ofensa.

Quando nós assumimos que nossa sociedade (leia-se sociedade como “grupo de pessoas que habitam o mesmo período de tempo e espaço, seguindo padrões comuns”) nos molda para sermos machistas, racistas, classistas, LGBTfobicos e gordofobicos, por exemplo, conseguimos observar com mais facilidade nossas atitudes inconscientes que oprimem mulheres, negros, pobres, LGBT+ e gordos e, assim, podemos reajustar nossa conduta para não ter mais essas atitudes.

Ilustrando, didaticamente, simples assim: se eu assumo que posso ser gordofófica, mesmo sem querer, quando sem intenção faço algo que oprime pessoas gordas, eu consigo perceber, tomando consciência, e me corrigir.

Se eu nego que sou gordofobica, mesmo quando eu faço algo sem querer, mesmo se alguém me disser que eu fui errada, eu vou continuar negando e continuar agindo da mesma forma. Afinal, não errei! O que preciso corrigir?

Uma coisa que eu já cheguei a falar é “gordo só faz gordice” e “nunca vi mais gordo”. Após perceber que eu estava sendo gordofóbica e que isso não fazia parte dos meus valores, pois eu prezo pelo respeito a todos os seres, comecei a me tornar consciente toda vez que pensava assim, e hoje eu consegui desconstruir isso, pra não reproduzir esse tipo de absurdo. Mesmo que eu ainda pense algo nesse sentido, eu vou estar consciente que não é o tipo de atitude que eu queria ter e vou procurar mudar.

Mudar é evoluir!!!

É uma questão até mesmo de humildade e maturidade, você admitir que tem atitudes inconscientes, porque ao se tornar consciente você pode controlar e mudar, facilitando a vida de todos e beneficiando a evolução da sociedade, tornando-a um lugar melhor pra se viver.

Se somos homens, brancos, classe média (ou ricos), heteronormativos e mais próximo a um padrão de beleza (magros), a chance de oprimirmos qualquer pessoa é muito maior, porque como essas opressões não nos atinge, ela fica ainda mais inconsciente, pois temos o privilégio de não passar por certas situações constrangedoras e incômodas, até violentas, ficando numa zona de conforto – portanto, há mais chance de a gente se beneficiar com essas opressões, e mesmo sem querer, acabar oprimindo o outro.

Quando fazemos parte de algum desses grupos oprimidos, fica um pouco mais fácil de perceber a opressão que sofremos e isso pode despertar empatia para outras pessoas de grupos diferentes que também sofrem como nós. Infelizmente, nem todos possuem consciência sobre como a sociedade é estruturada e opressora, portanto mesmo uma mulher pode reproduzir o machismo que aprendeu ou uma pessoa negra pode reproduzir o racismo, pois, como já foi dito, a sociedade está estruturada com essa cultura.

Sim, a própria pessoa oprimida pode reproduzir a opressão sobre ela mesma e seus pares, de tão inconsciente que essas coisas são!

Quando uma mulher percebe a opressão que sofre, no caso o machismo, e começa a perceber que muito do seu sofrimento do dia a dia está relacionado a essa cultura violenta, ela começa a perceber atitudes que antes não percebia. Algumas atitudes que a incomodavam, porém não entendia, passam a ser mais conscientes e ela consegue entender e denunciar.

Muitas mulheres, ao perceberem o machismo, despertam para opressões a outros grupos que não fazem parte, e, por empatia, procuram não mais oprimir. Se a empatia não vem automaticamente, ela pode fazer um esforço consciente (empatia cognitiva) e se colocar no lugar dos outros para entender suas opressões. Para isso, é preciso ouvir, com atenção, a reclamação e necessidade dos outros.

Não é uma tarefa fácil, mas é gratificante saber que você faz parte de uma nova consciência, que procura respeitar integralmente todos os seres humanos, mesmo com o forte trabalho da sociedade em te programar pra ser uma opressora.

Por isso eu sou adepta do feminismo interseccional, porque como diz, em um vídeo, a mestra Djamila Ribeiro: “É justamente de mostrar essa necessidade de a gente trabalhar essas intersecções de raça, classe e gênero e entender que essas opressões estão subordinadas a uma mesma estrutura. Você lutar contra uma e reforçar a outra opressão, você tá alimentando o poder que você diz combater”.

Eu acredito que é puro egoísmo não se importar, porque existem pessoas assasinadas, sendo humilhadas, passando raiva, sendo magoadas, por conta de comportamentos que muitas vezes são naturalizados em nossa sociedade, por serem inconscientes. Falando de desenvolvimento pessoal, é falta de se auto observar e achar que você já nasceu pronto, perfeito, sem cometer erros. A maioria de nós, bem intencionados, não age de forma opressora porque quer. A maioria de nós, acredito, apenas age assim porque está programado (pela sociedade), mas que não percebe o quão nocivo é para outras pessoas. Para a perpetuação dessa cultura violenta.

Eu entendo que é difícil se assumir opressor. Ninguém quer esse papel, o papel de algoz. No entanto, é muito melhor e mais digno a gente assumir que pode errar e tentar corrigir, do que negar com unhas e dentes, fingir pra si mesmo que não comete esses erros da “sociedade” e continuar oprimindo ou reproduzindo preconceitos que ferem. Eu digo “fingir para si mesmo”, porque um homem, por exemplo, não consegue fingir não ser machista, quando, de fato, é. Afinal, as atitudes demonstram perfeitamente esses condicionamentos.

Bem, eu comecei falando que eu não conseguia me sentir à vontade diante de pessoas que não tem empatia pela aflição do outro ser humano, no passado, porque de certa forma hoje eu tolero mais. Não concordo e nem sou conivente, até por isso que estou aqui. Mas eu comecei a ter mais equilíbrio mesmo diante de atitudes que me incomodam profundamente. Comecei a refletir sobre esses incômodos e comecei a emanar mais amor, compaixão pra essas situações e pessoas. Entendi que, talvez, essas pessoas não tenham maturidade suficiente, ou força interior ou capacidade intelectual, pra lidar com o sofrimento alheio. Muitas vezes essas pessoas não conseguem nem lidar com seus próprios problemas e aflições, imagina lidar com as questões dos outros? Isso me abriu novas possibilidades sobre os outros seres humanos e como a nossa sociedade funciona.

Atualmente, me pego ainda querendo despertar a consciência de que somos programados por uma sociedade que privilegia um grupo bem específico de pessoas e quer manter oprimido todos os outros grupos. Acredito que basta consciência sobre como somos programados e nos reprogramar conscientemente, com os valores que realmente queremos.

Pra isso, é necessário esforço. É necessário autoconhecimento e assumir, pra nós mesmos, que somos frutos da sociedade e podemos, sim, ser o algoz.

A sociedade é cruel, mas se a gente não concorda com essa crueldade, podemos modificar a parte que nos cabe para que ela se torne mais digna para todos.

E pra quem acha que não existe sociedade…

Sociedade é um conjunto de seres humanos vivendo na mesma época e espaço, que seguem basicamente as mesmas regras.

Sociedade são instituições que socializam as pessoas. São instituições que moldam as pessoas com valores específicos daquele grupo.

Quando falamos que a “sociedade” é machista, racista, LGBT+fóbica, gordofóbica, classista… é porque são esses os valores transmitidos, às vezes explícita, às vezes sutilmente. Por mais que sejamos pessoas legais, que queiramos fazer o bem para o próximo, não podemos ignorar que esses valores estão muito enraizados em nós, estão, muitas vezes, no inconsciente e fazemos sem perceber. Por isso, negar que somos opressores só funciona pra manter a sociedade como está. E queremos que esses valores mudem, porque ainda tem gente MORRENDO, sendo HUMILHADA, sofrendo VIOLÊNCIA… por causa desses valores.

Quando assumimos que podemos, sim, sem querer, agir de forma opressora, trazemos essas atitudes pra consciência e podemos começar a modificar.

Pense nisso. Seja consciente sobre sua responsabilidade na mudança social, assumindo-se potencial opressor(a).