A maternidade pode enlouquecer. A vida pode enlouquecer. Me lembro em 2015 que eu tava muito cansada com minha rotina. Chegava em casa super cansada, comia, às vezes ia à praia (saudades, Santos), tentava curtir com meu companheiro da época e tentava relaxar, mas dormia mal e o dia seguinte era mais cansativo ainda e eu estava surtando.

Cada dia era pior, eu ficava mais cansada e não sabia o que fazer. Fui meditar e tive um insight (visão / luz) que precisava. Eu realmente estava trabalhando bastante, ia e voltava de bicicleta, também não estava no trabalho que eu queria. Minha rotina estava realmente cansativa, física e emocionalmente, porém um detalhe me surpreendeu e mudou tudo: quando eu chegava em casa, que tentava descansar, ficava pensando no cansaço dos últimos dias, no meu incômodo de estar profissionalmente não realizada e como isso se estenderia nos dias seguintes até eu colocar um fim naquele ciclo. Eu juntava o cansaço físico real, a frustração profissional e a projeção de que amanhã e depois seria igualmente cansativo, ignorando completamente que eu teria, entre um dia e outro, noites de sono que poderiam ser reparadoras, se eu conseguisse realmente relaxar.

Comecei a perceber que se eu parasse de pensar no futuro e no passado, e focasse no presente, tudo que eu teria que fazer era descansar para poder encarar uma nova jornada no dia seguinte. Também percebi que eu realmente tinha um problema: um trabalho que eu não gostava. Por mais que eu não tivesse uma oportunidade nova de trabalho em vista, então não pudesse simplesmente abandonar aquele trampo, eu tinha detectado o problema e poderia encontrar uma solução – e isso foi suficiente pra conseguir relaxar.

Hoje, como mãe, às vezes me bate essa canseira e ansiedade. Por exemplo, se é hora de amamentar ou acabei de terminar e estou cansada, às vezes me vem o pensamento que  “daqui a pouco tenho que fazer de novo”. Ou, de madrugada, que tenho a fralda pra trocar, pode me bater a maior preguiça e desespero (“tô muito cansada!”)… nessas horas, volto pra minha realidade, respiro, assumo a responsabilidade dessa minha escolha (afinal, ninguém vai fazer as tarefas por mim, salvo minha mãe que me ajuda no que pode), me volto pro momento presente, olho pra carinha do meu bebê e lembro como tenho sido recompensada por todo trabalho, e que assim que eu fizer, a tarefa vai acabar. Lembro que até a próxima mamada já terei feito outras coisas ou até mesmo descansado um pouco, ou que assim que eu terminar vou voltar a dormir, mas lembro, principalmente, que tudo que eu preciso é me concentrar no Agora, no momento presente, pra fazer as coisas sem o peso do futuro ou do passado, focando no esforço físico do momento, porém sem projetar o peso emocional disso tudo.

A mesma coisa acontece quando o meu filho chora. O som estridente do choro de bebê pode enlouquecer profundamente, e quando se está cansada ou emocionalmente instável, aquele choro pode afetar muito mais do que simplesmente incomodar os ouvidos. O bebê começa a chorar, o incômodo do som é real, começamos a pensar que é culpa nossa do sofrimento dele, que estamos fazendo errado ou que não estamos dando conta, perdemos nosso equilíbrio, o bebê sente nossa agonia e não consegue se acalmar, o que se transforma numa bola de neve, nos levando a um problema realmente maior do que simplesmente um choro estridente da necessidade do nenê.

Tenho o privilégio de ter um bebê sem cólicas ou outras dores (pelo menos nunca percebemos), que não chora muito, que mama direitinho e que avisa baixinho que tá precisando de algo. Desde sempre estou focando também a satisfazer as necessidades dele assim que as detecto, não deixando ele ficar sujo / molhado, com sono ou fome por muito tempo, então as poucas vezes que ele chora de forma estridente, me mantenho focada na tarefa pra que ele pare de chorar. Exemplo: ele ama tomar banho e sempre chora quando sai. É um dos choros mais estridentes e longos, porque aí ele deve ficar chateado porque saiu do banho relaxante, deve ficar com frio e até secar e colocar toda roupa, demora um pouco, além disso sempre damos banho antes de mamar, então deve juntar com o incômodo da fome. Se eu estivesse com uma carga emocional acumulada, prestasse atenção no meu cansaço anterior e projetasse o cansaço das próximas tarefas (arrumar a bagunça, amamentar, etc), esse choro poderia, de fato, me enlouquecer. Mas meu foco é no “Agora”. Quanto mais rápido eu terminar de colocar a roupa nele, mais rápido eu vou colocar ele no meu peito pra ele mamar e acalmar. Quanto mais rápido a necessidade dele for sanada, mais rápido eu também ficarei bem. No entanto, se eu não focar na tarefa do “Agora”, as outras não poderão ser feitas de forma eficiente. Se eu não coloco a roupa dele e levo ele para o peito só de fralda, sem me arrumar numa postura adequada só pra ele parar de chorar mais rápido, eu vou pular etapas importantes pro nosso bem estar. Ele vai ficar com frio e eu com dores no corpo. Eu prefiro fazer tudo em paz e agilidade, respirando fundo e tentado não deixar me afetar com o choro, a fazer tudo me enlouquecendo com aquele som, piorando a situação.

Eu até tento acalma-lo com a chupeta (me julguem!) ou pegando ele no colo, cantando e abraçando ele para que ele não sofra tanto, mas meu foco é sempre em terminar as tarefas com agilidade e sem pensar no futuro (tarefa seguinte) e no passado (carga emocional que ficou), para que a minha realidade possa estar cada vez mais favorável.

Tem também outro detalhe importante de se ter em mente: a prática do não-julgamento! Nossa mente funciona dando rótulos e julgando (bom ou ruim) o tempo todo. Quando a gente foca no momento presente sem julgamentos (“não é bom, nem ruim, apenas é”), as coisas ficam mais leves.

Outro exemplo: quando meu bebê tinha 10 dias, eu tive que  fazer uma cirurgia para tirar minha vesícula, pois estava infamanda. Fiquei internada um pouco mais que um dia e meio, mas não chegou a dois. Comecei a sentir dores no sábado à noite, amamentei meu bebê, fui pro pronto socorro,  me diagnosticaram e já me internaram, passei a noite toda lá, o domingo inteiro (dia da cirurgia) e a manhã de segunda. Eu tive que deixar meu filho de 10 dias com o pai dele e meus pais, dando fórmula na mamadeira (o pediatra pediu pra eu não dar meu leite enquanto eu estava no hospital por conta da medicação). Eu fiquei desesperada, num primeiro momento. Tanto por estar longe dele,  como por ele ter ficado tomando fórmula. Mas não tinha o que fazer, era uma emergência. Parei de julgar o fato de ele estar tomando fórmula como “ruim”, apenas era o que era. A minha dor já era grande, então não ficava pensando no meu sofrimento por estar longe e por ele estar tomando fórmula. Eu estava doente, precisava passar por um procedimento cirúrgico e ele correria muito mais risco estando comigo (acho que nem podia), no hospital. Meu foco era me recuperar do meu problema de saúde, no “agora”, pra resolver e poder voltar a cuidar dele.

Minha preocupação era com a amamentação, afinal, ele estava sendo cuidado e amado pelo pai e os avós (minha mãe é a segunda mãe dele). O pediatra me orientou a tirar o leite com a bombinha (o hospital tinha uma elétrica) e descarta-lo (por conta da medicação), apenas para estimular e não empedrar e / ou diminuir a produção. Ao chegar em casa, segunda após o almoço, mesmo com MUITA DOR pós-cirurgia, de banho tomado, tirei a roupa que fiquei no hospital, me higienizei e fui dar de mamar pro meu filho, pedindo que tirassem da minha visão a fórmula e a mamadeira, que eu não queria nem ver! Tudo que eu focava, naquele momento, era ele voltar a mamar no peito. Ele pegou novamente meu peito como se nunca tivesse pego a mamadeira e ficou tudo bem! Tudo que eu fazia era agradecer! Mais uma vez: foquei na tarefa do momento, no Agora.

Não adiantaria de nada, e poderia até ser pior, eu alimentar o sofrimento de deixar o meu bebê recém nascido pra fazer a cirurgia. Além disso tudo, focar no Agora faz a gente ter paz suficiente pra escolher as melhores alternativas, equilibrando racional e intuição, para as questões que vão aparecendo. As escolhas durante surtos, normalmente, não são as mais eficientes.

 Não sei se consegui me expressar como eu queria, porém a mensagem é relativamente simples: a vida pode enlouquecer, a maternidade cansa (!!!), mas se a gente não está presente integralmente, projetando a dúvida do futuro e colocando o peso emocional do passado, ela cansa infinitamente mais! Mesmo em um momento de sofrimento, ele não é maior do que podemos aguentar se estamos totalmente presentes. A carga fica muito mais pesada quando adicionamos o “tempo psicológico” (passado e futuro) no Agora.

Uma das recomendações médicas que meu obstetra deu desde o primeiro dia que cheguei no consultório dele, grávida, foi: viva o Agora! O que eu posso fazer no Agora pra ficar bem? Não tô conseguindo comer (por estar enjoada)? O que eu posso comer e fazer Agora pra ficar bem? Amanhã é outro dia e outras soluções vou encontrar. O ontem ficou pra trás. Tudo que temos é o Agora. Recomendação médica, que bateu perfeitamente com minha filosofia de vida: o Agora é tudo que temos.

Qual é o meu desafio real no Agora?

Qual o seu?