Em meio a pandemia do novo corona vírus, em quarentena, andei pensando sobre como o machismo me afeta e qual a minha função no processo de expansão de consciência – minha e do mundo – relacionado a esse assunto.

É inevitável, quando em processo de auto-cura emocional, algumas feridas emergirem para a consciência. Ultimamente, em isolamento social, além das minhas obrigações de dona de casa e mãe, estou usando bastante o meu tempo pra me sentir bem mental e espiritualmente. Nesse contexto de muita auto reflexão, juntando com violência recentes que sofri e ainda com o documentário O Silêncio dos Homens que assisti esses dias, tive muitas oportunidades de reflexão pra vir aqui escrever sobre isso.

Assim como a maioria das minhas amigas, também feministas e/ou mulheristas, vivo intensamente o machismo no meu dia a dia. Costumamos dizer que uma mulher que não sente o machismo, ou ela é muito distraída ou muito privilegiada que até o próprio machismo lhe dá algum privilégio, embora a oprima de alguma forma.

Ou seja, o machismo tá aí pra todo mundo se machucar com ele, inclusive os próprios homens.

Mas por que falar sobre o tema é tão relevante? Onde está esse machismo que tanto falo e porque eu simplesmente não o ignoro e vivo minha vida em paz sem ficar me importando com isso?

O machismo está na cultura da nossa sociedade e, sendo assim, os homens se sentem (mesmo que sem querer) superiores a mulheres, as diminuindo e as usando como meros objetos em suas vidas. Além disso, as próprias mulheres com frequência diminuem outras mulheres (e a si mesmas) para dar o famoso biscoito para homens que muitas vezes não estão fazendo mais nada do que sua obrigação, que é tentar viver em sociedade da melhor forma possível.

Muitos homens falam que não são machistas, que amam as mulheres e que por terem sido criados por suas mães, respeitam o sexo feminino. Porém, muitos deles seguem agindo da mesma forma como foram condicionados pela sociedade. Exemplos de machismo no cotidiano é fazer das mulheres e dos corpos delas meros objetos sexuais. Também é comum o julgamento social de uma mulher de aparência sensual como não digna de respeito ou incapaz intelectualmente. Em casa, é machismo deixar só para as mulheres toda a responsabilidade dos filhos e das tarefas do lar tal como alimentação, organização e limpeza. Além de toda cultura do estupro, que estão as violências sexuais, desde o estupro em si, como quando o homem insiste tanto em ter relações sexuais quando a mulher não quer que ela acaba aceitando sem querer. Também, em ambientes sociais e familiar, os homens insistem em fazer piadas com nossos corpos, ciclos e vivências, e temos que aguentar porque se não somos taxadas de “chatas”, que não sabemos aceitar piadas. Somos o tempo todo silenciadas, desmerecidas e deslegitimadas.

Sim, é cansativo só de ler, imagina viver.

Infelizmente, como a maioria das mulheres, ainda estou muito ferida pelo machismo, misoginia e o patriarcado. Sofri e ainda sofro quando seguem nos oprimindo e violentando. Talvez eu nunca me cure de verdade, e eu não posso ser culpabilizada por isso. Não é nossa culpa não conseguir nos curar de traumas. Aprendi ser uma mulher que luta pela equidade, que todos tenham os mesmos direitos sociais, que sejamos tratados com respeito. Expressando minha dor, minha vivência, muitas vezes faço com que os homens enxerguem o que não estavam enxergando e passem a repensar suas atitudes.

Infelizmente, não tenho tempo nem energia pra ficar ensinando todos os homens, principalmente aqueles que não se dispõem a ouvir mais e falar menos, como serem menos machistas.

Atualmente, a meta é parar de lutar contra o machismo e lutar com e pelas mulheres, todas elas, todas nós. Afinal, cansa ficar brigando com homens machistas e mulheres que reproduzem o machismo o tempo todo, já que brigar não vai mudar muito de fato. Eu não acho desnecessário a briga, eu só não consigo mais, não tenho mais disposição pra isso. Brigar fisicamente nunca fiz, quero dizer que cansa mesmo brigar com palavras – por mais adequado que seja meu argumento, a consciência não vai mudar se não houver um despertar verdadeiro. Posso ter todos os argumentos do mundo de porque o machismo é errado, mas a verdadeira mudança não estará na minha habilidade de argumentar e sim na vontade da pessoa de absorver o conhecimento e ter empatia de mudar.

O que eu tento é ser um ponto de luz para que outras mulheres entendam que não estão sozinhas e que podemos nos livrar de relações abusivas e tóxicas, para que elas entendam que merecemos amor e respeito e não relacionamentos em que precisamos mendigar por afeto, tanto em relações conjugais como em relações de amigos, irmãos, colegas de trabalho, pai e filha, mãe e filho, etc.

No meu dia a dia, eu tento me impor para que não sejam machistas comigo, procuro dizer com firmeza meus posicionamentos e procuro ter coragem de não me calar. O triste é que sofro violências da mesma forma, das micro agressões, como ouvir piadas machistas, às grandes, como abusos sexuais (como aconteceu recentemente, mais de uma vez). Sendo assim, eu poderia ser “a mais poderosa”, com super poderes mutantes, carregar uma espada, ter voz imponente, um cargo de máximo respeito no mundo, porém só por ser mulher, ainda assim sofreria violência.

Fora que, algo muito importante para ser mencionado nesse contexto, é que mesmo que eu (apenas uma hipótese), INDIVIDUALMENTE, superasse todo tipo de trauma causado pelo machismo, que eu nunca deixasse que ninguém me interrompesse a fala ou me abusasse sexualmente, se eu tivesse força de nunca ser deslegitimada e nunca ser objetificada, eu individualmente poderia sofrer menos com o machismo, porém enquanto OS HOMENS não mudarem seus conceitos internamente e atitudes, e as outras mulheres também não tiverem parado de sofrer violência constantemente derivado ao machismo, eu não poderei me sentir bem e curada, em paz.

Eu não sei você, mas eu não consigo ficar em paz sabendo que outros seres humanos seguem sendo humilhados diariamente, sofrendo agressões físicas, sexuais, psicológicas. Pessoas próximas a gente, mas também pessoas de longe, do mundo inteiro. Eu não sei você, mas eu me sinto conectada de tal forma com os outros que eu sofro, sim, pelos outros. Faz parte da minha humanidade e da minha espiritualidade. Todos somos um.

O machismo, a misoginia e o patriarcado suga nossas energias, não deixando com que tenhamos força para exercer nossa missão com maestria. As violências diárias que sofremos, mesmo que de forma inconsciente, nos atrasa.

Um machista de verdade, por maldade, por falta de consciência do outro, por falta de empatia e humanidade, vai se orgulhar de ser machista, rir da nossa dor e fará questão de machucar mais, o máximo possível. Um SER HUMANO com amor verdadeiro no coração, que se preocupa com a cura profunda das pessoas, que tem compaixão pelo sofrimento alheio, vai olhar para esse relato, essa dor expressa em texto, e pensar “o que posso fazer para diminuir a dor dessas mulheres?” E a resposta é simples, porém o processo é complexo: olhar para si mesmo, como tem sido machista e diminuir o máximo possível esses comportamentos. Agir com o máximo de cuidado, pensar antes de falar, não ser violento, aprender a ouvir NÃO e a respeitar a palavra da mulher.

E, para finalizar esse relato, é importante dizer que o machismo não atinge só as mulheres. O machismo atinge a sociedade inteira, pois não respeita as pessoas e oprime a todos, homens, mulheres e pessoas não binárias / sem gênero. Autoconhecimento é essencial para a auto cura de atitudes e para começar a ter empatia (não confundir com simpatia) e deixar de praticar violências contra os outros.

VOCÊ SABIA?
Eu escrevo no blog há 15 anos e há quase 3 anos lancei meu primeiro single, uma música do estilo RAP, chamada a “A Resistência das Minas“, sobre o machismo na cena da arte, da música. Você acredita que, não uma ou duas vezes, mas várias, me fizeram o seguinte questionamento: por que você não escreve / canta sobre outra coisa sem ser machismo, falando mal dos homens? Bom, a verdade é que eu faço isso, mas pelo próprio MACHISMO, as pessoas nunca se deram ao trabalho de me ouvir – por exemplo, meu último single MONSTROS.